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Reposição de testosterona induz câncer de próstata?

reposição de testosterona

A reposição de testosterona no paciente com hipogonadismo pode induzir o câncer de próstata? Este tema é debatido nos últimos anos nos congressos de urologia. Muita controvérsia tem sido relatada, mas nos últimos anos, estas questões estão sendo esclarecidas.

A sociedade americana de urologia diz que os médicos devem informar aos pacientes sobre a ausência de evidências ligando a terapia com testosterona ao desenvolvimento do câncer de próstata.

As diretrizes atuais das sociedades internacionais de urologia não recomendam a terapia de reposição de testosterona em pacientes de risco para desenvolverem o câncer de próstata e por questões clínicas.

As contra-indicações da terapia de reposição com testosterona:

  • antecedentes familiares de câncer de próstata,
  • câncer de próstata localmente avançado,
  • câncer de mama em homens,
  • homens com desejo de ter filhos,
  • hematócrito maior que 54% e
  • doença cardíaca crônica severa
  • PSA maior que 4 ng/mL.

A sociedade europeia de urologia diz que o crescimento do câncer de próstata pode ser influenciado pela testosterona. Estudos relatam que o hipogonadismo está associado a uma menor incidência de câncer de próstata. Contudo, se o CaP ocorre em homens com hipogonadismo, geralmente tem estádio avançado da doença e maior escore de Gleason. Estudos randomizados de curta duração sustentam a hipótese de que o tratamento com testosterona não resulta em alterações na histologia da próstata. Além disso, não há aumento significativo da testosterona intraprostática e da dihidrotestosterona. Estudos indicam que a terapia com testosterona não aumenta o risco de desenvolver CaP ou torna os tumores de próstata mais agressivos.

Mais ainda, recente metanálise, não mostrou que houve aumento do risco de piora no Índice Internacional de Sintomas Prostáticos de Próstata (IPSS), na detecção de níveis anormais de PSA ou no desenvolvimento de câncer de próstata.

Estudos prévios

Metanálises são estudos que analisam com rigor estatísticos múltiplos estudos sobre o mesmo tema. Assim sendo, duas metanálises de ensaios clínicos randomizados avaliaram a incidência de câncer de próstata (CaP) em homens submetidos a reposição de testosterona. Eles não relataram associações do aparecimento do câncer de próstata durante o tratamento. Entretanto, estes estudos tinham várias limitações metodológicas, incluindo tempo de acompanhamento curto, potenciais confusões por indicação e viés de detecção potencial.

Recente estudo analisou se a terapia de reposição de testosterona está associada a um risco aumentado de CaP em homens com hipogonadismo de início tardio.

Pesquisa de reposição de testosterona em homens com hipogonadismo

Eles utilizaram o banco de dados de Pesquisa de Prática Clínica do Reino Unido com coorte de 12.779 homens com hipogonadismo. Os pacientes foram avaliados entre 1/1/1995 e 31/8/2016. O acompanhamento foi feito até 31/8/2017. Deste total de pacientes 3.645 (28,5%) foi prescrito terapia de reposição de testosterona. Neste estudo, 3.299 pacientes (90,5%) receberam o tratamento no primeiro ano. Assim, o restante dos pacientes não receberam terapia de reposição hormonal. Este estudo foi publicado em maio de 2019 na revista American Journal Epidemiology.

Entre os pacientes que usaram a reposição de testosterona, 9,1% dos pacientes já tinham outras neoplasias prévias e no grupo controle 8,4%. O uso de anti-inflamatórios não-hormonais, aspirina, estatinas e metformina foram iguais entre os dois grupos. O uso variou nos grupos entre 20% a 50%.

Os pacientes que entraram no estudo tinham pelo menos um ano de histórico médico no banco de dados de Pesquisa de Prática Clínica do Reino Unido. Foram excluímos homens com histórico de CaP e/ou uso de terapia de privação androgênica prévia. Ou seja, homens tratados com câncer de próstata localmente avançado e avançado. Além disso, foram excluídos aqueles que usaram a terapia de reposição de testosterona em qualquer momento antes da entrada da coorte.

Os pacientes prescritos com terapia de reposição foram considerados expostos a partir de um ano após a primeira prescrição até o final do seguimento. O período de um ano foi necessário para contabilizar uma janela de tempo de latência mínima, ao mesmo tempo em que minimizou o viés de detecção e a causalidade reversa.

Resultados do estudo

A média da idade dos pacientes na entrada da coorte foi de 60,2 anos. A média de acompanhamento foi de 4,6 anos. No geral, 4765 (37,3%) e 1173 (9,2%) pacientes foram acompanhados por pelo menos 5 e 10 anos, respectivamente.

Um total de 215 pacientes foram diagnosticados com câncer de próstata, com taxa de incidência de 3,7 por 1.000 pessoas-ano. Quando comparados pacientes com e não uso de terapia de reposição hormonal não foi associado com um aumento geral no risco de CaP. Os índices foram de 3,4 versus 3,8 por 1.000 pessoa-anos, respectivamente.

Estes pacientes foram estudados com um modelo de análise estatística de riscos proporcionais dependentes de tempo de Cox. O uso de terapia de reposição de testosterona não foi associado a um risco geral aumentado de CaP. A razão de risco foi de 0,97; com intervalo de confiança de 95%: 0,71-1,32, comparado com pacientes que não fizeram uso da reposição hormonal. Portanto, a reposição de testosterona não foi associada a risco aumentado de CaP em homens com hipogonadismo de início tardio.

Discusão da reposição de testosterona em homens com hipogonadismo

A incidência de câncer de próstata foi maior naqueles que não receberam a terapia de reposição com testosterona. É possível que esses pacientes não tenham recebido a terapia devido à níveis anormais de PSA. Assim, foram diagnosticados mais pacientes com câncer de próstata. Além disso, nos pacientes com tempo de exposição da terapia de 2 a 3 anos não alterou a detecção do CaP. Mais ainda, não houve risco de morte por qualquer causa.

Em resumo, os resultados deste estudo indicam que o uso da reposição de testosterona não está associado a um risco aumentado de câncer de próstata em homens com hipogonadismo de início tardio. Esses achados devem fornecem garantia sobre a segurança a longo prazo da terapia de reposição de testosterona nestes homens.

Além disso, este estudo impar somente comparou pacientes hipogonádicos, portanto, diferentes de outros que existem na literatura médica. Os outros, comparam pacientes em reposição contra pacientes sem hipogonadismo. Assim sendo, o estudo confirma que a terapia de reposição com testosterona não é capaz de induzir CaP.

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Referência

Santella C, Renoux C, Yin H, Yu OHY, Azoulay L. Testosterone Replacement Therapy and the Risk of Prostate Cancer in Men with Late-Onset Hypogonadism. Am J Epidemiol. 2019 May 30.

https://uroweb.org/guideline/male-hypogonadism/#5

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