215051260_criancas_bolha_sabaoO que é?

A criptorquidia é uma doença congênita, onde não se pode palpar o testículo no escroto. Pode ser uni ou bilateral. Na criptorquidia verdadeira não se palpa o testículo, tanto na bolsa testicular como dentro do canal inguinal, estando localizado no retroperitônio (região posterior ao abdômen). Todos recém-nascidos com caraterística fenotípica do sexo masculino, com testículos bilaterais não-palpáveis devem ser submetidos a avaliação de um possível distúrbio do desenvolvimento sexual, especialmente em crianças com hipospadia severa. Embriologicamente, os testículos surgem no retroperitônio e descem para se localizarem fora do abdômen, no escroto. Os testículos surgem próximo dos rins, sendo que estes sobem para se localizarem na região lombar e os testículos descem. Quando ocorre alguma anomalia como má formação do cordão espermático como por serem mais curto, ele não conseguem chegar no escroto. Mas, pode ocorrer nesta descida alguma obstrução mecânica a sua passagem que o impede de chegar na bolsa testicular. Entre estes dois defeitos, o pior é o primeiro, pois a má formação é primária dos elementos do cordão. Outras anormalidades locais podem ocorrer, como má formação dos epidídimos ou mesmo disjunções entre o testículo e o epidídimo.

Quando é possível sentir o testículo no canal inguinal, chamamos de testículo distópico (intracanalicular), que também pode ser palpado no subcutânea da região inguinal, como na raiz da coxa, e que neste caso chamamos de testículo ectópico. Existem raros casos de anorquia (ausência da formação testicular ou que sofreram atrofia por torção precoce, intra-útero ou após o nascimento).

Os testículos começam a sofrer lesão definitiva após o sexto mês, se localizado fora da bolsa testicular. A transformação normal da espermatogonia fetal para a do tipo adulto ocorre por volta do seis meses e a partir dai começam a se degenerar, se os testículos não estiverem posicionados na bolsa. A densidade das células germinativas diminuiu ao longo do tempo, começando ao redor do final do primeiro ano. As espermatogonias estavam ausentes em 30 a 40% dos testículos que não foram operados até os dois anos de idade. Em meninos com criptorquidia unilateral, os espermatócitos primários não foram vistos no testículos operados e estavam presentes em apenas 19% dos testículos contralaterais em meninos de quatro a cinco anos de idade. A espermatogênese estava ausente na maioria dos testículos abdominais unilaterais pós-púberes.

 

Sinais

O sinal mais importante dos pacientes portadores de criptorquidia ou distopia testicular é a ausência de testículo dentro da bolsa, que pode ser uni ou bilateral. Os testículos mais favoráveis são os palpados dentro do canal inguinal e os criptorquídicos normalmente apresentam maiores anomalias locais, tanto por ser um testículo mais disgenéticos (mal formados na sua estrutura microscópica), como por ocorrem mais anormalidades deste com o epidídimo. Normalmente, os testículos criptorquídicos são acompanhados de anomalia estrutural da parede abdominal, a hérnia inguinal. Os testículos distópicos são mais vulneráveis a torção testicular, com risco 10 vezes maior que os testículos localizados na bolsa (isquemia arterial causada pela torção do cordão espermáticos, cujo sinal mais importante é a dor aguda, que se não for resolvida cirurgicamente em 6 horas da sua ocorrência, será danificado completamente). Os testículos localizados no canal inguinal são mais vulneráveis ao trauma, por compressão contra o púbis.

 

Diagnóstico

Os testículos distópicos e criptorquídicos são diagnosticados ao nascimento do bebê em torno de 3% na gestação a termo e no final do primeiro ano ocorre em 1%. Nas crianças pré-maturas é comum o achado da anormalidade, em torno de 30%, mas desde que não ocorram anormalidades no canal inguinal (por onde passam o testículo, epidídimo e cordão espermático), estes testículos chegam a sua localização final na época da data prevista gestacional para o parto normal. Descida espontânea é rara depois de seis meses de idade. Os testículos distópicos podem ser confundidos com testículos retráteis, que ocorrem pela ação do músculo cremastérico do cordão espermático. Este músculo posiciona os testículos conforme a temperatura corporal, como no inverno quando geralmente os testículos são posicionados mais alto na bolsa. Normalmente, a ação mais forte destes músculos se interrompe na adolescência, principalmente pela ação do aumento da testosterona, criando condições para sua fixação definitiva durante o seu amadurecimento. Os testículos são estimulados na sua descida pela produção da testosterona intra-útero. A sua falta ou deficiência pode ser a causa da anormalidade. Existem uma possibilidade forte destes testículos serem mal formados embriologicamente.

 

 

Tratamento

As principais razões para o tratamento de criptorquidia incluem a redução dos riscos de infertilidade, neoplasia testicular, torção e/ou hérnia inguinal associada. O ideal é que o tratamento seja feito após os 6 meses de vida para que se possa diminuir as lesões causadas pelo aquecimento na microestrutura testicular, principalmente sobre as espermatogonias que são mais sensíveis do que as células de Leydig (secretam testosterona, androstediona e dehidroepiandrosterona (DHEA), quando são estimuladas pelo LH, ou hormônio luteinizante). O tratamento antes de dois anos (idealmente antes de um ano de idade) está associado com o aumento do crescimento testicular e potencial de fertilidade. Os testículos devem estar localizados fora do abdômen, em temperatura menor que 1,5-2 graus centígrados do temperatura corporal, de 370C (como ocorre em todos os mamíferos).

A permanência do testículo intra-abdominal predispõe a lesão permanente da espermatogônia (célula primordial para formação dos espermatozóides) e também pode predispor a gênese da neoplasia primária do testículo, seja o tumor seminomatoso ou os tumores não-seminomatosos. Crianças operadas após os dois anos de idade estão mais sujeitas ao câncer, e a cirurgia a definitiva é a orquiectomia (retirada do testículo). A criptorquidia aumenta a chance de câncer do testículo de quatro a catorze vezes, sendo maior o risco de desenvolver câncer nos testículos criptorquídicos bilaterais (risco relativo 9,8 vezes maior). Estas pessoas devem ser acompanhas e orientadas sobre este risco do câncer de testículo, sendo que a qualquer aumento testicular observado pelo auto-exame devem procurar seu médico imediatamente. O tratamento precoce do câncer de testículo é curável, só pela cirurgia, em taxa próxima dos 100%.

No início do segundo semestre pode-se instituir o tratamento hormonal, com uso de drogas que vão estimular a sua descida para a bolsa, como a gonadotrofina coriônica intramuscular semanal, aplicada por 6 semanas. Esta terapêutica é mais eficaz nos testículos com localização intra-caniculares mais distal, e é efetiva em torno de 10%.

A cirurgia, chamada de orquidopexia, é uma exploração cirúrgica onde se abre o canal inguinal para se atingir o testículo e liberá-lo das aderências teciduais que fixam o testículo, para que seja colocado dentro do escroto. Como foi dito, os piores casos são os que o cordão espermático é curto para que se possa descê-lo para a bolsa testicular. Nestes casos deixa-se os testículos o mais baixo que for possível e no futuro pode-se realizar uma segunda cirurgia, quando a criança estiver mais desenvolvida, mas se deve operar o mais precoce possível para evitar lesão da espermatogonia.

Na orquidopexia deve-se reparar a hérnia inguinal que acompanha estes casos.

 

Prevenção

Esta é uma doença congênita e portanto não há como fazer sua prevenção. Os portadores desta anomalia são mais frequentemente subférteis na idade adulta.